Dos acordes de uma guitarra imaginária, os pensamentos de um guitarrista sem dedos para a tocar

terça-feira

That's why

Hoje é um daqueles dias difíceis. Passei o dia entre trabalhar e sair com o meu melhor amigo. É o habitual, ainda que ultimamente ele não possa tanto e eu lá me vou ressentindo.

Sinto que não estou em lado nenhum. Nem cá nem lá, nem em lado nenhum. Hoje senti pela primeira vez que acho que não tenho nenhum sítio para estar. Que eu não faço diferença, corro e não me canso, canso-me deitado. É a melhor maneira de explicar a minha dificuldade em dormir.


Estou com tanto trabalho que não tenho tempo para parar e pensar. E no entanto estou sempre a pensar, no mesmo tema, só que não estou parado. O sentido prático do sofrimento lento.


E não é que não me tenha posto aqui. Neste momento sou o dono de todos os meus problemas. Tirando aquela multa da emel, que eu já paguei e que eles querem que eu pague novamente. Tirando isso, só a mim é que tenho de me prestar contas, e já vai em quatro ou cinco livros de merceeiro. 



E assim vou seguir, relutantemente firme, corajosamente estúpido que nem uma porta, perdoem-me o advérbio, e a falta de contradição há segunda parte. Sinto falta do bafo, da testa com testa, do prometer do beijo concretizado.


Não estou à busca de perfeição, a sério que não estou. Mas hoje estou a sentir-me um pouco como um amigo esquizofrénico que eu tenho, ou tinha, que o facebook expulsou-o da minha vida, infelizmente. Gosto dele. Sinto-lhe falta. Acho que como tudo na minha vida, sinto falta dele pelo efeito que ele tem em mim. Não porque sou um tipo extraordinário que gosta de ter amigos complicados. Este meu amigo, que planeou matar-me quando tínhamos 16 anos, e planeou matar-se quando tinhamos 15, 16 e 17 e perdi a conta aos 18. Gritava há uns meses que não queria mais esta vida, uma vida de solidão, de um virgem de 32 anos, à espera de amor ao virar da esquina só com a troca de um olhar. A verdade é que isso é possível. Não sei se com um tipo que gosta de professar o seu ódio a tudo o que existe para além dos seus rigorosos hábitos. Eu sou estado social mais avançado dele, não sou muito diferente. Gostava de o abraçar um dia. Mas provavelmente ele ia achar que eu o queria raptar para um mundo social feliz, e credo valha-nos Deus se uma coisa dessas acontecesse um dia. Todos os medos dele podiam concretizar-se logo ali, como um acto de magia desgovernado.

É engraçado que estou a fazer isto enquanto finalizo uma apresentação de pedido de patrocínio... Nunca consigo concentrar-me numa coisa apenas. Não é só que não consigo concentrar-me numa só coisa, eu só consigo estar centrado em várias. Isto na minha vida é constante. São raros os momentos em que consigo ver apenas uma coisa à frente. E sei sempre qual é.


Acabei de vestir o meu casaco favorito. É de um enorme conforto. Visto-o sempre com o mesmo gesto. Lentamente o braço direito desliza pela manga, se puder fecho um pouco os olhos ao senti-lo passar pela minha pele. Baixo o braço esquerdo para apanhar a outra manga e o braço esquerdo levanta, não muito rápido, nem muito lento. Quando os dois braços estão bem alojados nas mangas, levanto os ombros, até ao colarinho avisar o meu pescoço que pode sentir-se confortável. Ajeitam-se os dois, se estiver calor, deixo-o assim, se tiver frio puxo a sua enorme gola para cima, fecho-a bem até ao queixo. E fecho os olhos também.

E se acham que eu não ouvi estas versões todas é porque não sabem que tenho uma playlist já com elas todas em repeat enquanto trabalho e escrevo isto e penso no que não devo. E estrago-me a pensar ainda mais. Sou forte o suficiente? Aguento? Consigo? Chego lá? Esperar não é fácil. Esperar nunca foi uma qualidade minha...

2 comentários:

Pusinko disse...

Este post é extraordinariamente aberto como um peito Às balas para salvar outrem. Directo, sem recursos estilisticos a mascarar um texto fluido e espontâneo.
Li com um misto de curiosidade e avidez em tentar adivinhar por onde seguiam as tuas palavras.

Um abraço Miguel :)
Pusinko

Miguel Bordalo disse...

Era só um estado de espírito. Vai mudando... Beijo!